terça-feira, 1 de agosto de 2017

Janela Interna


Flutuava no espaço como que pendurada por linhas invisíveis. O céu de um vermelho carmim refletia nas nuvens cinzas, tingindo-as em matizes imprecisas.

Ele tinha a cabeça virada para o alto, como se observasse a janela suspensa, mas seus olhos estavam fechados, seus olhos nem existiam de fato. Todavia, a janela não estava no céu externo, habitava dentro dele, suspendia seus pensamentos e desejos, costurava seus medos, escondia suas verdades.


Estendeu o braço, tentando alcançar a grande janela, agarrou-se às nuvens rasgando o céu. Repetiu o gesto, agora com a mão esquerda, impulsionando seu corpo e se prendendo as paredes celestes, seu peso fez uma nova fenda no espaço e delas, brotaram linhas negras, agarrando seus braços em um nó forte e rígido. Agora não podia continuar sua escalada e nem voltar atrás.

Corvos sobrevoavam sua cabeça, e rápidos, se postaram acima da janela, olhando fixamente para o sol poente. O tempo corria devagar.
Um líquido viscoso amarronzado começou a escorrer das fendas no céu, descendo pelos seus braços, cobrindo suas roupas e sua pele, começava a sufocá-lo.

Aflito, se debatia, usando todas suas forças, tentava abrir os seus olhos e se livrar das linhas que prendiam seu corpo aos céus.

Esperneava-se, e sua perna direita se enganchou ao último suspiro do vento e penetrou o céu. Agora seu corpo desenhava uma estranha pose no ar, ainda com os olhos fechados, não pode ver que agora, a janela se abria.

Sentiu suas pernas serem puxadas pela fenda. Enquanto uma luz matinal invadia o céu vermelho da sua mente tornando tudo menos nebuloso e confuso.

Um grande olho surgiu por detrás da janela. Tapando toda luz. O olhar curioso buscava compreender o que via.

Enquanto ele aos poucos abria os seus olhos e sentia seu corpo ser costurado ao liquido viscoso que o envolvia.
A última coisa que viu foi a si mesmo, pendurado em memórias tristes, preso por seu passado.

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O "conto" que se segue é um experimento para meu TCC(Trabalho de conclusão de Curso) na linguagem de pintura. Este texto é uma conversa entre o meu métedo de pintar com os motivos que me instigam. Seu objetivo é construir uma imagem carregada de uma sensação e sentidos. como se percorrêssemos uma sequência de grandes quadros e nossos olhos fossem se apegando a cada detalhe para formar um todo.
A construção do texto pretende trazer os elementos que vão ser trabalhados na tela. como uma troca: ao mesmo tempo o repertório da pintura é a base para o texto, este texto dará vida a uma nova tela.
Agora vocês terão a chance conferir o texto, mas vou ficar devendo a tela em si!

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Os Sete Gêmeos Regentes e a Queda do Reino das Virtudes.



“Fizemos um trato, ele deveria enviar suas sete virtudes cardeais, enquanto que eu deveria apenas fazer os sete pecados, (que já estavam lá, livres, leves, soltos e sempre se multiplicando), atrapalharem ao máximo os bem feitores divinos. Nunca fui de recusar desafios. O que eu tinha a perder afinal?”

Seus membros largos, duros como aço e quentes como lava a ajudavam a rastejar pelo chão de pedra imundo. Levantou-se usando suas ultimas forças, seu Vazio consumia todos os seus sentimentos e ela não conseguia ao menos chorar.
Uma pequena explosão e uma falsa pista foram tudo que a sorte ou destino trouxeram para que a multidão as perdesse de vista.
Somente a dor física a lastimava como raios finos penetrando dilacerantes em diversos pontos do seu corpo, mas sem hesitar se levantou, acomodando seu ultimo laço sanguíneo nas costas. Oferecia aquela dor como homenagem a seus irmãos, que agora já deviam estar livres. Totalmente livres da dor.
Tentavam fugir do grande grupo que clamava por vingança. Cobravam os erros e enganos que ela e sua família trouxeram. Eram grandes as perdas, sobre tudo, a humanidade, se é que nela residia algum valor.
Sob as cores da noite e as lagrimas do céu, viu por entre os prédios, em pontos distantes, raios de luz subindo as alturas como pássaros, refletindo a claridade azul em seu rosto de criatura mitológica.
Queria gritar, queria sofrer mais do que a dor física permitia, já não tinha como fugir, suas escolhas deixaram apenas um beco escuro a sua frente, e era por ele que deveria seguir.

“Eram sete, e cada um completava o outro. Irmãos com algo diferente em que acreditar. Um caminho a seguir. Uma virtude para desenvolver e dividir ao mundo. Todos tomados por uma insatisfação que os consumia. Agora, aquele velho sentimento se mostrava de uma forma tão intensa, que nunca antes pode conceber, e sua irmã, a passos do abismo, era a ultima pessoa com quem dividiria algo nesse mundo.”

Ouviu gritos a suas costas, eles estavam chegando. Tentou olhar para trás, mas se desequilibrou, voltou-se para frente, lutando contra seus medos e incertezas que a cercavam como um véu.
Ela não iria conseguir, porém não sabia disso, sua força tinha sido minada pelo seu Vazio, mas dentro dela ainda resistia à esperança.

“Tudo que sonharam, e tudo que fizeram para construir aquele sonho, desmoronou, levando um a um. Suas sementes que geraram belas flores e frutos foram violadas, injetadas com o veneno da mentira, e agrotóxicos de aparência benéfica, porém mortais. O plano de suas vidas fora um erro? Talvez eles não fossem tão especiais.”

Suas pernas pesavam agarradas pelo chão, presas por arrependimentos que não conseguia sentir e fantasmas que arquitetaram seu fracasso desde o inicio. Tentou se livras daquelas nojentas mãos que seguravam seus tornozelos, fechou os olhos pedindo para que desaparecessem.
Na sua luta em tentar determinar o que era verdade e ilusão, sua força conseguiu libertá-la. O impulso, como de ondas em ressaca, quebrou diante a praia de concreto e a junção de seu peso e o de sua irmã contra a tampa de uma boca-de-lobo fez seus braços prenderem entre dentes de ferro e concreto, quase se desfazendo. Enquanto livre, o corpo de sua irmã rolou metros à frente.
A água da chuva corria, e ouvia como se estivesse próximo a uma queda d’água os ecos de seu destino.
Quase sentiu o gosto da raiva e do medo, e por isso esta foi a vez que chegou mais perto da felicidade, iria gritar, mas este morreu no pensamento.

“Agora entravam em combate a Ira contra a Ponderação. A ultima das virtudes contra a primeira enfermidade da alma. Os defeitos dos que a rodeavam agiram como um câncer afetando as células da perfeição, que frágeis, tentavam resistir.”

Ela olhou para o corpo casto de sua irmã que jazia em uma posição horripilante, totalmente desajeitada metros a sua frente, o corpo que em vida refletia a doce beleza de sua alma e atos, fora dilacerado e agora era apenas o casulo vazio de uma borboleta.  Desejou chorar com todas as suas forças. Mas como era comum a sua natureza, a paciência a tomou, quem sabe pela ultima vez.

   “Ela não conseguiu vencer a natureza humana. Assim como seus irmãos, foi alcançada e subjugada por sua oponente, mesmo conseguindo resistir até o ultimo momento, o sabor da derrota é o mesmo. Falharam em seu destino ou estavam destinados a falhar?”

 Gritou em protesto ao ver o corpo de sua irmã ser levado com violência, era como ver um trapo velho ser jogado. Em seguida a multidão turvou sua visão, matando a luz da noite.
A sua volta, olhares com ódio e gritos de vitória. No entanto, a chuva era o único som que queria ouvir, e a cascata artificial abaixo de si, o único lugar que gostaria de ir.
Muitas pessoas hesitaram, vendo a mulher indefesa, com os braços estranhamente presos em uma tampa de bueiro, seu semblante era a confusão, que possuía uma beleza estranha, não natural como a que se encontra em qualquer lugar. Talvez uma beleza não física, alheia as suas feições que ganhavam uma coloração que não conheciam e proporções mistas do humano e o divino.
Mas a maioria não estava ali por justiça, e sim por desforra, regidos por seus valores estritamente materiais, ou defendendo seus dogmas que foram ultrajados, suas certezas que foram traídas, e orgulho que foi, não apenas ferido, mas sobretudo reduzido ao nada.

“Quando os “falsos salvadores” caíram, a morte da esperança reagiu em cada um, e projetaram sobre os “Sete Gêmeos Regentes” a culpa por todo o mal que lastimava suas vidas. Precisavam apenas do estopim da revolta, alguém para dar o primeiro passo.”

“E enquanto os Sete pela ultima vez unidos, buscavam sua inocência diante do povo, foi orquestrada a traição pelos mesmos conselheiros que os havia corrompido.”

Gritos de pânico e murmúrios coincidiram com uma imensa luz azulada que iluminou os últimos da roda de linchadores, enquanto os mais próximos começaram a espancá-la, com chutes, pedaços de pau e ferro ou qualquer coisa que encontraram no caminho, sem notar a confusão formada na boca do beco.
A tampa da boca-de-lobo se partiu totalmente, levando consigo sua prisioneira ao fundo do buraco. Ela fechou seus olhos, se entregando a sua angustia, finalmente ela penetrou em seu Vazio. Tornaram se um.
Alguns de seus agressores se desequilibraram se afastando em seguida. Um misto de satisfação e medo cresceu dentro de cada um. Em silêncio todos esperaram olhando atentamente para o buraco.
Uma sombra negra começou a brotar do bueiro como uma trepadeira, viva e pulsante, ela assustou os incrédulos a sua volta. Seus ramos escuros criavam aos poucos uma forma definida suspensa no ar, e o negrume era substituído pela mesma luz azul que iluminou o grupo momentos antes. A figura formada de pura claridade surpreendeu a todos, que confusos, não sabiam o que pensar ou em que acreditar.
Uma voz perdida na multidão expressou o que talvez fosse o que muitos pensaram: “Meu Deus, o que fizemos, matamos um anjo!?”

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Esta é uma das 5 versões  de um conto originalmente escrito para o fanzine "O Fabulário". O tema era relações fáusticas. E nesse conto queria abordar uma história que fosse grande de mais em pequenos flashs. fazer um conto que guardasse um romance. Eu tinha o limite do fanzine e ao mesmo tempo, queria propor uma maneira pouco comum de se construir uma história.
Depois de muitas discussões no grupo e conselhos, acabei modificando bastante o conto final, que entrou pra a edição Fáusticas, porém nunca publicado. (quem sabe um dia?). O conto final ganhou o nome de "Três lampejos sobre Sete Vidas alternativas". pretendo postar em breve por aqui.

domingo, 10 de janeiro de 2016

Para Nunca dizer Adeus.

“Que bom que chegou, já estava cansado de te esperar”
“Desculpe a demora, essa chuva atrapalhou tudo!”
“É então, imagina esperar nesse frio e com essa chuva!”
“Eu sei... eu sei...”
“Mas, e ai tudo bem?”
“Sim, tudo ótimo... sabe que dia é hoje?”
“Não, qual? O dia da festa?”
“Não, hoje é sábado de aleluia...”
“uhum...legal...”
“Puff... dia em que Jesus ressuscitou...”
 “Tanto faz, não sou católico, ta esperando por outro milagre hoje?”

Os dois amigos riram...
“Sabe... até estou, mas também não sou católico...”
Após dizer isso, ele ficou imaginando como um milagre poderia mudar as próximas duas horas da sua vida, quem sabe, mudar o resto da sua vida.

“Não, não vai acontecer. Vou tentar agir normalmente...”
“Cara, não sei porque você continua com isso, parece que gosta de sofrer!”

Um sorriso brotou no rosto deprimido do amigo. Sem alegria
“É, as vezes eu acho que é só por isso que eu continuo sentido certas coisas, sabe? Apenas pela dor. É como se eu fosse viciado. É como se ela fosse minha droga.”

“Sua droga? Qual tipo? Hahahaha”

“Qual tipo? Acho que ela seria como uma cocaína. Quando o perfume dela penetra pelo meu corpo é como se injetasse felicidade, euforia, ganho animo, mas depois, quando ela vai embora, cresce um vazio em mim, é como se com ela fosse toda a alegria do mundo...”

“Uau! Espero nunca sentir isso!”
“É, e eu espero que isso acabe logo...”
“Porque você não acaba com isso logo?”
“Se te pedissem pra escolher entre decepar suas mãos ou perfurar seus olhos, seria fácil?”

“Deixa eu pensar, ver e sentir a dor de nunca poder tocar, sentir a dor de não ver, mas poder tocar...bom, quais dos sentidos te trás mais alegria?”
“Acho que a visão, na vida existem muitas coisas inalcançáveis para nossas mãos, mas que nossos olhos agarram.”
“Tipo o que? “
“Nenhuma mão poderia abraçar o nascer do Sol”
“Sim, mas de qualquer forma ser mutilado nunca é bom...”

“É, se pudesse escolher a veria bem de perto e a abraçaria... para sempre...”
“Olha ai nosso ônibus, vamos”

Eles subiram as escadas e atravessaram a catraca, sentaram-se nos últimos bancos.

Ele começava a pensar como seria vê-la, na ultima vez ela esteve ainda mais linda. E agora, como estaria?

“E quem não iria querer não é meu amigo. Até eu que sou mais bobo, com todo o respeito, claro!”


Riram-se cúmplices.

“Eu queria me afastar. Dizer tudo isso que está entalado em mim, depois sair andando pra nunca mais vê-la. Dizer que penso nela todos os dias em diferentes horas, dizer que não consigo mais fingir que não existe esse sentimento fingindo que está tudo bem.
Não esta tudo bem! sofrer vendo que ela segue distante, que ela está se afastando. Pensar que ela esta com outro, pensar em quantos idiotas beijaram aqueles lábios que eu desejo por tanto tempo.”
“Não é fácil, eu sei, mas acho que deveria fazer isso, vocês nunca vão ser completamente amigos, vai sempre existir o medo de passar a impressão errada, ou não contar certas coisas para não magoar um ou outro. mas no final todos se magoam, ao menos, você vai se magoar.”
“Da sinal ai, o próximo é o nosso.”

Desceram, estavam a poucos metros da festa de aniversário.
Ele estava decidido a acabar com tudo aquilo aquela noite. Andavam ao lado da calçada pela rua escura.

Caminhavam sob o mesmo guarda-chuva...

“Nossa, vamos ficar meio molhados do qualquer forma! Haha”
“hahahaha, melhor do que completamente molhados.”

“Você acha que isso é amor?”
“Cara, não sei... eu nunca quis que fosse, e nunca quis dar esse nome para o que sinto, mas o que sei é que tudo que eu mais queria era estar com ela.”
“A vida é assim, a gente vai tendo que aprender a viver sem as coisas que mais nos são importantes...”
“ Eu nunca vou entender como alguém pode negar algo tão belo...”

Parou bruscamente acompanhando o amigo petrificado. Estavam
na porta da casa onde a festa acontecia.
Ela acabava de sair ao portão. Ele lembraria do sorriso que a moça deu ao vê-lo pelos últimos dois segundos da sua vida.

O Sorriso se tornou pavor.

Uma luz branca segou os dois.
A chuva caia forte.

Ele empurrou o amigo o mais longe que pode, recebendo todo o impacto.

Eles nunca puderam dizer Adeus.

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Este foi um exercício escrito em 2010 - criar um conto de uma história em movimento que envolvesse uma conversa orgânica e falas de ações cotidianas para compor o ambiente. Tratar de sentimento complexos em um espaço curto e tentar surpreender em um final inesperado.


domingo, 15 de março de 2015

A Incrível História do segredo da vida e o homem que amava de mais


Então Abayomi jogou a pá para o lado.
Desembainhou sua espada de diamante e se preparou para o ultimo ato de coragem.
__ Você sabe que isso pode matar nós dois e mesmo assim ninguém será salvo, Abayomi?
__ Zera, esta é a minha unica escolha, não tentar seria a minha morte e o fim de tudo do mesmo jeito.
Fincou a espada no circulo negro que encontrou no chão.
A luz brilhou em sua pele negra.
Vento, calor e paz.
Beijou Zera e acariciou sua barriga.
Desejou com todas as forças que seu sacrifício salvasse a todos.
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Uma tentativa de conto que não explique nada.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

O Negro na Literatura Brasileira - Clóvis Moura

Nos últimos anos passei a repensar minha produção buscando levar para ela a cultura afro-brasileira e a representação do negro, na arte, na literatura e no design. Tanto por minha descendência com por minha admiração pela cultura.
Não posso negar de me impor como um afro-descendente em minha produção cultural, pois o mundo não se nega de me fechar portas justamente por essa descendência.
Percebi que fui negligente com minha cultura na minha produção quando ainda jovem, pesquisando e querendo criar histórias voltadas a mitologia grega e nórdica e sem conhecer a mitologia africana.
Isso se deu pois nunca me foi apresentado esse mundo, ao contrário a mitologia grega é sempre vangloriada e difundida por todos os meios de comunicação de massa, enquanto a do negro é sempre renegada, taxada de uma cultura malévola, voltada ao diabo e ao inferno. algo sujo e vil.

Um texto que faz uma análise sobre o negro na literatura é o de Clóvis Moura, que reproduzo a seguir:

O Negro na Literatura brasileira

   No caso específico da Literatura o problema é mais visível e transparente. Deveríamos começar falando do negro como objeto de literatura e do negro como criador de literatura, no processo histórico que constitui a formação e desenvolvimento da nossa cultura literária.
   Em primeiro lugar, o negro na Literatura Brasileira nunca foi herói. Não temos praticamente - salvo algumas tentativas residuais - nenhum livro que mostre o negro como herói, a não ser os anti-heróis de Moleque Ricardo  de José Lins do Rego, do Jubiabá de Jorge Amado, e do próprio O Bom Crioulo de Adolfo Caminha. Nestes, o negro entra sempre como anti-herói, no sentido em que os padrões da     Literatura Brasileira o entendem. Isto não acontece por acaso, evidentemente. Há todo um processo de barragem estético-ideológico impedindo que os criadores da LitBra se voltem para o negro e procurem nele aqueles elementos que permitam transformá-lo em herói literário.
   Quando estudamos a fase do indianismo, a julgamos como sendo simples influência de toda a fase romântica da Literatura Francesa. Isso só ocorreu em termos. No indianismo, há uma conotação nacional, tendo sido usado para desviar o leitor do fundamental. Tínhamos uma sociedade escravista, onde o trabalho escravo era a forma fundamental de produção, e foi visto como necessário derivar para o índio o heroísmo nacional, transformá-lo em herói. Há um exemplo neste particular bastante significativo. A ópera de Carlos Gomes Lo Schiavo teve o seu enredo escrito por Taunay e o personagem central era um escravo negro. Por exigências cênicas, porém, substituíram o herói por um índio e transferiram a ação da ópera do século XVIII para o século XVI. O autor dessa transformação absurda foi o poeta Rodolfo Paravicini, sob os protestos de Taunay. Isso mostra que como símbolo do heroísmo não se podia colocar um negro. O negro tinha de ser na literatura, como nas artes em geral, aquela parte passiva, entrando como paisagem humana, aparecendo apenas para que o herói se destacasse.

  Em cima de tudo isso, desta intelectualidade elitista e preconceituosa, vemos, também, a incapacidade de o negro criar uma cultura dentro dos cânones oficiais existentes na época. A literatura era feita por brancos e em toda a literatura da época vamos encontrar nesta constante: o negro não aparece como herói. Na medida em que essa literatura se forma, surge uma ideologia na sociedade brasileira, a ideologia do branqueamento, isto é, a nação brasileira seria tanto mais civilizada quanto mais branca fosse e pudesse, então, expelir do seu componente étnico o negro. este praticamente era o que sujava a civilização brasileira nesse processo.
  Quando se creia uma Literatura Brasileira, uma ensaística brasileira, ela é, praticamente, toda racista e não apenas em Oliveira Viana. Na obra de Euclides da Cunha, de Sílvio Romero, de Tobias Barreto, este inclusive era mulato, assim como nos romances de Graça Aranha, Júlio Ribeiro e outros, vamos encontrar, como uma constante, aquela determinação de dizer o que sujou, o que atrapalhou a dinâmica da sociedade brasileira não foi o fato de existir escravidão, mas o fato de existir o negro, como raça inferior. há neste momento imbricação de tal maneira sutil que não se diz: o Brasil está atrasado porque foi o último país do mundo cristão onde o escravismo colonial foi abolido, mas, pelo contrário, o país está atrasado porque o negro entrou na sua composição étnica. No discurso de Euclides da Cunha, de Silvio Romero e no de todos aqueles que deram conotação fundamental ao pensamento brasileiro, nós vamos encontrar um discurso racista. Afrânio Peixoto, substituto de Euclides da Cunha na Academia Brasileira de Letras, dizia que tínhamos de nos livrar do mascavo nacional, tínhamos de jogar fora a borra negra para nos  transformarmos, dentro de duzentos anos, num país branco, ocidental e civilizado. Todos os outros seguem mais ou menos esse diapasão.
  Podemos citar, como exceções, Alberto Torres e Manuel Bonfim, mas eles não constituem uma vertente capaz de influir no processo de dominação do pensamento racista das elites, que construíram o pensamento do Brasil. Isso faz com que nossa literatura reflita, veladamente ou às vezes de forma ostensiva, esse racismo subjacente do pensamento da sociedade civil brasileira. todos nós dizemos que somos antirracistas, mas na hora em que as situações concretas se apresentam, vemos esse racismo aparecer.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Espaguete No Tubo - Parte 2

Leia a parte um aqui.

Parte 2

Ligo a lanterna-auxiliar, não to conseguindo entender nada daquilo ali… parece que são quatro.
O cheiro fica mais forte a cada metro…

Estou flutuando a trinta centímetros do chão, minha cabeça quase encosta no teto do túnel, encontrei os primeiros pedaços… alguém não limpou direito isso aqui da ultima vez! olha!
Eu conheço este logo… Caramba… é um macacão-de-realidade-fixa, como alguém esquece uma perna INTEIRA no túnel…
Central, isso aqui é um “Espaguete com almondega”, repito, temos um C007-A aqui.”
Negativo, Zéfiro-13 siga com o procedimento de C007”

Porra… pensei que não podia piorar...
Como assim, seguir com C007? Ahhh, desculpe-me parceiro, vou ter que deixa-lo ai…

Apenas alguns metros adiante consigo enxergar melhor o acidente, vejo movimentos em meio aquela bagunça.
A luz azulada das minhas lanternas me mostram aquele conjunto asqueroso de carne, ossos, sangue e tecidos triturados, amontoados em tiras.
O resultado de um colapso no sistema de tele-transporte faz com que a matéria transportada fique instável, adquirindo massa no momento errado, então o trajeto é interrompido, os corpos se chocam em um percurso cruzado, o resultado é este aqui.

Consigo distinguir cabelos encaracolados e um rosto infantil, a pele negra suja de sangue, uma menininha. Ela olha pra mim e começa a choramingar, chamando por sua mãe. Sua voz está fraca.

Oi mocinha, fique calma, vou tirar você daqui! fique calma...”
Ativo a propulsão e chego rapidamente ao seu lado, desligo os jatos e desço.
Lagrimas escorrem dos meus olhos, copiando os da garotinha.
Mamãe... Mamãe” ela chama...

Seu corpo foi parcialmente triturado, não há como saber como ela sobreviveu…
Suprimo a vontade de agarrá-la em meus braços. Ativo o levitador-de-matéria, desenhando o contorno do seu corpo no ar, deste modo uma capsula de oxigênio a envolve, ela começa a levitar.

Reativo o propulsor e me dirijo á saída B237, ela não está longe, mais uma curva e estarei lá.
A lanterna apontada para o chão do túnel me mostra um rastro vermelho sob o aço negro.

A menina mantem uma respiração fraca e um olhar de medo e dor. Estou tentando lembrar de alguma canção para acalmá-la, porém só me vem letras de trash metal dos anos 1980 na cabeça… então apenas digo frases que não acredito como “vai dar tudo certo!”, “você vai ficar bem!”.

Finalmente encontro o fim do rastro, o corpo de uma mulher, ela tem apenas um braço, suas pernas e o lado esquerdo do seu ombro viraram espaguete, lá atrás.

Olha pra mim tá, você vai ficar bem!”
Deixo a mãe da menina ali mesmo, terei que voltar daqui apouco para recolher tudo aquilo.

VUUUUUUUUUUAAAAAAAAAAAAAAAAUUUUUUUUUUUUUUUM!”

o som ensurdecedor de uma sirene estoura e luzes vermelhas começam a piscar por todo o túnel.
Alguma merda aconteceu, uma bem grande.
Fortaleço a capsula da menina e aumento a velocidade, preciso chegar ao drone, tenho que salvá-la.
Longe, um som de explosão se junta ao da sirene, seguindo-se um tremor a minha volta, a vibração do estrondo percorre todo o aço do túnel.
O sistema de ventilação parou, junto com as luzes vermelhas e o som das sirenes.

Este é aquele ultimo capítulo do manual de treinamento, aquele que a gente nunca pensou que precisaria se preocupar, que nunca iria acontecer. Alguns caras nem leem esse capitulo.
Não consigo acreditar, o sistema está sendo destruído.

Com o sistema em colapso, minhas lanternas eram a única fonte de luz nos corredores, a escotilha deve estar poucos metros a frente.
Central,vocês podem me fornecer alguma informação? acabo de ouvir um estrondo, e todo o sistema de luz e ventilação do setor está desligada”
....”
Central?”
Meu coração apertou, desejava ter alguma resposta, porém só o silêncio, estou sozinho aqui.
Continuo o percurso, minha única salvação é chegar até a escotilha e com o drone, salvar a menina e a mim, pois minha carga-de-energia não suportaria voltar até a central levando a garota.
Ao longe podia ouvir gritos, pequenas explosões seguidos do silêncio e vibração das paredes dos tubos.
A minha lanterna-auxiliar ilumina o circulo vermelho da saída de emergência, só falta alguns segundos agora.
Aproximo-me… estranho, sem as válvulas, a escotilha foi deixada aberta, me preparo para sair, mas algo chamou minha atenção a frente, outro rastro de sangue. Merda…

Ei, té-cnico!”
Reconheço o logo da empresa no macacão sob a minha luz azulada, desligo os propulsores e desço.
Ah! é-é vo-cê Zéfiro…”
Caralho, Zaviski o que aconteceu com você?”
Ele tinha um sangramento na altura do estomago que tentava estancar com a mão.  
Fo-mos invadi-dos, eles es-tão de-stru-indo tudo!”
Eles quem?”
Não sei p-or-ra, per-di o contato com to-dos lá fora, a ultimas noti-cias que tive foi da Za-fira… ahh…” ele sentia muita dor “Ela dis-se que e-stão destru-indo a ma-lha do es-paço-tempo, ela faz par-te do gru-po...”
O que? Foram eles que fizeram isso com você?”
N-não, foi uma ex-plosão, antes… an-tes do siste-ma parar, ia sair pela esc-otilha mas a válvula explodiu em mim, olha e-ssa mer-da!”
Espera, vamos sair daqui”
Aproximei o corpo da menina junto com o do Zaviski desenhando uma capsula maior, uma se fundiu a outra, agora eu poderia carregar os dois. Porém teria menos carga ainda. Será que vou conseguir?
Calma, vai dar tudo certo! disse pra mim mesmo
Liguei os propulsores e sai pela escotilha, com cuidado manobrei o corpo da garota e de Zav pelo buraco circular.
O drone não estava lá.

Porra, o que a gente faz agora Zav, era para ter um drone aqui, não tenho carga para levar nós três para a central”
Fudeu… me de-ixa aqui, ta doen-do muito, acho que não vou cons-eguir, leva a me-n-ina, mas promete que volta para recup-erar me-u co-rpo, não dei-xe minha família cre-menterrar um an-droide-de-ente-rro no meu lugar.”
Não vou te deixar Zav, tenho uma ideia. vou descer com a gente por fora dos tubos até a linha antiga de carros, e ai vamos andando até a central, pode dar certo”
É muito pe-rigo-so Záf, me-lhor não! me d-ei-xa aq-ui, e vai com a me-nina, se não nós três va-mos mo-rrer”
Merda, não sabia o que fazer, não podia deixá-lo ali, nem a menina, não conseguiria viver com isso. nem IVEP-014 e muito Soma me livrariam disso.
Então reativei o propulsor, e me joguei do tubo com eles. descendo devagar…

Uma outra explosão, esta foi acima de mim.
Sinto o calor do fogo e a luz ilumina o vazio exterior da malha de tubos.
Estilhaços começam a cair lá de cima.
Consigo desviar de alguns.

Uma grande peça de aço negro se desprende da estrutura tubular lá em cima.
Consigo desviar, porém algo se prende em meu cinto-anti-gravidade e o leva junto.
a puxada deixa um grande corte em volta da minha cintura.

Começo a cair em queda livre. Vejo as capsulas de Zav e da menina se distanciando, eles permanecem flutuando iluminados apenas pelo fogo lá em cima e a luz fraca das minhas lanternas.
Poderia ser pior…” a voz da minha esposa vem na minha mente
Poderia ser melhor” ao menos uma vez?

A gravidade me puxa para baixo, onde o fim me espera.

Espaguete No Tubo - Parte 1


E lá vou eu mais uma vez...
Em plena segunda-feira. Essa gente não tem a mínima consideração... Fazer isso em PLENA SEGUNDA!

Geralmente, quando é em uma quarta a tarde, eu já estou mais preparado. A gente fica preparado pra tudo em uma quarta a tarde, inclusive isso!
Não seria um graaande problema... principalmente depois de conversar com o IVEP-014, meu psicanalista da empresa...

Agora, imagine você receber uma chamada as quatro da manhã em uma segunda, com um código 007 na mão pra resolver? Não é pra qualquer um...

Minha mulher diz pra eu pensar sempre no lado positivo... que podia ser pior, que eu poderia estar desempregado ou até mesmo trabalhando no Mac-di. Uhrg, não quero nem pensar...

Eu tinha um amigo que trabalhou lá por dois anos, e quando contei sobre as ocorrências frequentes de C007, (ou “espaguete no tubo” como eu e meus colegas apelidamos), ele disse que preferia uma vida de C007 do que um dia do C001 deles, (ou como eles apelidaram “Hemorroida gourmet”). Depois que ele me contou como funciona eu nunca mais comi lá (ou apertei sua mão), mas continuamos grandes amigos até ele morrer com infecção generalizada.

Isso me lembra o único ponto realmente negativo de um C007, é que não consigo mais comer espaguete, sempre que tento meu estomago embrulha, minha garganta fecha e vem na minha mente um “espaguete no tubo” fresquinho, não é uma visão nada bonita...
Porém, é como minha mulher diz, podia ser pior...
O psicanalista da empresa é muito bom, eu me divirto horas com ele, sempre às terças e sextas, amanhã mesmo... vamos ter muito papo para colocar em dia, com certeza ele vai me ajudar a superar este C007 de hoje, e depois, quem sabe, ele me injete um dose bem forte de Soma-12D? Seria um sonho... ou vários... Não me decepcione em, IVEPezinho!

Disse que não comer espaguete era o único ponto negativo? Bom, digo isso porque este eu ainda não consegui superar. IVEP e Soma, ajudaram com as fobias mais complicadas: o medo de lugares apertado, o cheiro de carne queimada, a esquizofrenia aguda, a mudança de personalidade, meus ataques de fúria e até fui inocentado de um assassinato que eu não lembro, IVEP diz para eu não tentar lembrar disso e eu sempre sigo suas recomendações médicas.

Chegando na empresa é sempre a mesma coisa, metade dos técnicos estão no psicanalista, (um dos quinhentos-e-poucos IVEPs instalados em salas que simulam consultórios do saudoso século XXI que emulavam consultórios do século XIX), a outra metade está fazendo atendimentos em conjuntos-residencia e cidades-empresa, ou nas ruas fingindo que estão trabalhando, como todo bom funcionário terceirizado.
A empresa é especializada na manutenção da malha física das redes de transporte á vácuo, ou como todo mundo conhece “Tele-transporte”.
Ai você vai me perguntar “Mas Zéfiro, como assim malha física? O Tele-transporte é pura mágica Maia resgatada de escritos milenares! Para que uma malha física?”
Não vou perder meu tempo explicando, ninguém quer saber com são feitas as salsichas-galáticas e o churrasquinho-carmagiano, podem viver sem essa também.

Está bem... Só pra entenderem: Para manipular o transporte a vácuo foi necessário desenvolver um sistema que suspende as realidades de tempo e espaço (que tem composições, em suma, “mágicas”) e nela foi criada uma estrutura de tuneis e conexões com portais chaves. Deste jeito é possível o deslocamento de matéria em nossos queridos tubos. São neles que eu trabalho a maior parte do tempo, apertando parafusos, conexões, instalando novos cabos, ampliando a malha, essas coisas chatas, nenhum problema.

Já equipei o cinto anti-gravidade e o macacão-de-realidade-fixa, estou a caminho do meu C007.
A galera no vestiário disse que alguma coisa muito estranha aconteceu, não sou só eu que veio atrás de um “espaguete”.

Atenção! técnicas e técnicos, informamos que não podemos interromper o serviço de Tele-transporte, pedimos para que trabalhem rápido e com cuidado para que possamos reativar os túneis interditados. Não se esqueçam de deixar a frequência do macacão de vocês no nível 2” Finalizou a voz pela rede de sonorizadores.

E tem isso ainda… eles nunca desligam o sistema, seria bem mais fácil trabalhar com ele desligado, além de evitar que novos C007 acontecessem no mesmo caminho… mas eles não dão a minima.
Por isso usamos os macacões-de-realidade-fixa, ele impede que nosso corpo colida com os usuários do tele-transporte nos túneis. Também usamos o levitador-de-matéria para isolar e mover objetos que não deveriam estar lá. O levitador também isola a realidade da matéria que transporta evitando novos acidentes.
Por ultimo usamos também um cinto anti-gravidade e botas com propulsão para nos locomovermos na malha.
Mas sempre tem um novato que esquece de mudar a frequência do macacão. É o “espaguete com almondegas”. é o preferido do Zavinsky, o pessoal até dá preferência pra ele. Eu não me importo, “vai lá Zav, cuida desse pra a gente!”

Ai você vai me perguntar “Mas Zéfiro, porque eles não desligam?”
A popularização do deslocamento de matéria foi um sucesso só comparável, com o da Internet, você sabe. Levou um tempo até que todos pudessem ter seus aparelhos, mas hoje qualquer um consegue comprar o seu em qualquer Casas-Baiana.
Eles devem ganhar muito dinheiro, com certeza você nunca ouviu falar de um “espaguete no tubo”, existe um esquema completo para impedir que qualquer coisa vaze.
Parar o sistema traria muitos questionamentos, deixariam as pessoas desesperadas, traria um grande prejuízo para cidades-empresas, talvez um colapso total.

Já estou sentindo o cheiro, deve estar na próxima curva, eles podiam arrumar isso! Por que sempre nessas curvinhas?
Gemidos… merda, será que ta vivo?
Central, aqui é o Zéfiro-13, temos um espaguete cru aqui, preparem as panelas por ai.”
Caralho, é bom o IVEP-014 me dar bastante Soma-12D amanhã…

Uma voz feminina respondeu no nano-comunicador.
Entendido Zéfiro-13, estamos lhe enviando um drone de transporte, ele vai estacionar na saída B237, fica a doze metros da sua ocorrência.”

Era a voz da Zafira, achei que ela ainda estava afastada depois que o seu marido morreu em um C042, o coordenador dos IVEPs a premiou com umas férias-regenerativa. Estou precisando de uma dessas também. 

Leia a parte dois aqui.