segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Espaguete No Tubo - Parte 2

Leia a parte um aqui.

Parte 2

Ligo a lanterna-auxiliar, não to conseguindo entender nada daquilo ali… parece que são quatro.
O cheiro fica mais forte a cada metro…

Estou flutuando a trinta centímetros do chão, minha cabeça quase encosta no teto do túnel, encontrei os primeiros pedaços… alguém não limpou direito isso aqui da ultima vez! olha!
Eu conheço este logo… Caramba… é um macacão-de-realidade-fixa, como alguém esquece uma perna INTEIRA no túnel…
Central, isso aqui é um “Espaguete com almondega”, repito, temos um C007-A aqui.”
Negativo, Zéfiro-13 siga com o procedimento de C007”

Porra… pensei que não podia piorar...
Como assim, seguir com C007? Ahhh, desculpe-me parceiro, vou ter que deixa-lo ai…

Apenas alguns metros adiante consigo enxergar melhor o acidente, vejo movimentos em meio aquela bagunça.
A luz azulada das minhas lanternas me mostram aquele conjunto asqueroso de carne, ossos, sangue e tecidos triturados, amontoados em tiras.
O resultado de um colapso no sistema de tele-transporte faz com que a matéria transportada fique instável, adquirindo massa no momento errado, então o trajeto é interrompido, os corpos se chocam em um percurso cruzado, o resultado é este aqui.

Consigo distinguir cabelos encaracolados e um rosto infantil, a pele negra suja de sangue, uma menininha. Ela olha pra mim e começa a choramingar, chamando por sua mãe. Sua voz está fraca.

Oi mocinha, fique calma, vou tirar você daqui! fique calma...”
Ativo a propulsão e chego rapidamente ao seu lado, desligo os jatos e desço.
Lagrimas escorrem dos meus olhos, copiando os da garotinha.
Mamãe... Mamãe” ela chama...

Seu corpo foi parcialmente triturado, não há como saber como ela sobreviveu…
Suprimo a vontade de agarrá-la em meus braços. Ativo o levitador-de-matéria, desenhando o contorno do seu corpo no ar, deste modo uma capsula de oxigênio a envolve, ela começa a levitar.

Reativo o propulsor e me dirijo á saída B237, ela não está longe, mais uma curva e estarei lá.
A lanterna apontada para o chão do túnel me mostra um rastro vermelho sob o aço negro.

A menina mantem uma respiração fraca e um olhar de medo e dor. Estou tentando lembrar de alguma canção para acalmá-la, porém só me vem letras de trash metal dos anos 1980 na cabeça… então apenas digo frases que não acredito como “vai dar tudo certo!”, “você vai ficar bem!”.

Finalmente encontro o fim do rastro, o corpo de uma mulher, ela tem apenas um braço, suas pernas e o lado esquerdo do seu ombro viraram espaguete, lá atrás.

Olha pra mim tá, você vai ficar bem!”
Deixo a mãe da menina ali mesmo, terei que voltar daqui apouco para recolher tudo aquilo.

VUUUUUUUUUUAAAAAAAAAAAAAAAAUUUUUUUUUUUUUUUM!”

o som ensurdecedor de uma sirene estoura e luzes vermelhas começam a piscar por todo o túnel.
Alguma merda aconteceu, uma bem grande.
Fortaleço a capsula da menina e aumento a velocidade, preciso chegar ao drone, tenho que salvá-la.
Longe, um som de explosão se junta ao da sirene, seguindo-se um tremor a minha volta, a vibração do estrondo percorre todo o aço do túnel.
O sistema de ventilação parou, junto com as luzes vermelhas e o som das sirenes.

Este é aquele ultimo capítulo do manual de treinamento, aquele que a gente nunca pensou que precisaria se preocupar, que nunca iria acontecer. Alguns caras nem leem esse capitulo.
Não consigo acreditar, o sistema está sendo destruído.

Com o sistema em colapso, minhas lanternas eram a única fonte de luz nos corredores, a escotilha deve estar poucos metros a frente.
Central,vocês podem me fornecer alguma informação? acabo de ouvir um estrondo, e todo o sistema de luz e ventilação do setor está desligada”
....”
Central?”
Meu coração apertou, desejava ter alguma resposta, porém só o silêncio, estou sozinho aqui.
Continuo o percurso, minha única salvação é chegar até a escotilha e com o drone, salvar a menina e a mim, pois minha carga-de-energia não suportaria voltar até a central levando a garota.
Ao longe podia ouvir gritos, pequenas explosões seguidos do silêncio e vibração das paredes dos tubos.
A minha lanterna-auxiliar ilumina o circulo vermelho da saída de emergência, só falta alguns segundos agora.
Aproximo-me… estranho, sem as válvulas, a escotilha foi deixada aberta, me preparo para sair, mas algo chamou minha atenção a frente, outro rastro de sangue. Merda…

Ei, té-cnico!”
Reconheço o logo da empresa no macacão sob a minha luz azulada, desligo os propulsores e desço.
Ah! é-é vo-cê Zéfiro…”
Caralho, Zaviski o que aconteceu com você?”
Ele tinha um sangramento na altura do estomago que tentava estancar com a mão.  
Fo-mos invadi-dos, eles es-tão de-stru-indo tudo!”
Eles quem?”
Não sei p-or-ra, per-di o contato com to-dos lá fora, a ultimas noti-cias que tive foi da Za-fira… ahh…” ele sentia muita dor “Ela dis-se que e-stão destru-indo a ma-lha do es-paço-tempo, ela faz par-te do gru-po...”
O que? Foram eles que fizeram isso com você?”
N-não, foi uma ex-plosão, antes… an-tes do siste-ma parar, ia sair pela esc-otilha mas a válvula explodiu em mim, olha e-ssa mer-da!”
Espera, vamos sair daqui”
Aproximei o corpo da menina junto com o do Zaviski desenhando uma capsula maior, uma se fundiu a outra, agora eu poderia carregar os dois. Porém teria menos carga ainda. Será que vou conseguir?
Calma, vai dar tudo certo! disse pra mim mesmo
Liguei os propulsores e sai pela escotilha, com cuidado manobrei o corpo da garota e de Zav pelo buraco circular.
O drone não estava lá.

Porra, o que a gente faz agora Zav, era para ter um drone aqui, não tenho carga para levar nós três para a central”
Fudeu… me de-ixa aqui, ta doen-do muito, acho que não vou cons-eguir, leva a me-n-ina, mas promete que volta para recup-erar me-u co-rpo, não dei-xe minha família cre-menterrar um an-droide-de-ente-rro no meu lugar.”
Não vou te deixar Zav, tenho uma ideia. vou descer com a gente por fora dos tubos até a linha antiga de carros, e ai vamos andando até a central, pode dar certo”
É muito pe-rigo-so Záf, me-lhor não! me d-ei-xa aq-ui, e vai com a me-nina, se não nós três va-mos mo-rrer”
Merda, não sabia o que fazer, não podia deixá-lo ali, nem a menina, não conseguiria viver com isso. nem IVEP-014 e muito Soma me livrariam disso.
Então reativei o propulsor, e me joguei do tubo com eles. descendo devagar…

Uma outra explosão, esta foi acima de mim.
Sinto o calor do fogo e a luz ilumina o vazio exterior da malha de tubos.
Estilhaços começam a cair lá de cima.
Consigo desviar de alguns.

Uma grande peça de aço negro se desprende da estrutura tubular lá em cima.
Consigo desviar, porém algo se prende em meu cinto-anti-gravidade e o leva junto.
a puxada deixa um grande corte em volta da minha cintura.

Começo a cair em queda livre. Vejo as capsulas de Zav e da menina se distanciando, eles permanecem flutuando iluminados apenas pelo fogo lá em cima e a luz fraca das minhas lanternas.
Poderia ser pior…” a voz da minha esposa vem na minha mente
Poderia ser melhor” ao menos uma vez?

A gravidade me puxa para baixo, onde o fim me espera.

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