segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

O Negro na Literatura Brasileira - Clóvis Moura

Nos últimos anos passei a repensar minha produção buscando levar para ela a cultura afro-brasileira e a representação do negro, na arte, na literatura e no design. Tanto por minha descendência com por minha admiração pela cultura.
Não posso negar de me impor como um afro-descendente em minha produção cultural, pois o mundo não se nega de me fechar portas justamente por essa descendência.
Percebi que fui negligente com minha cultura na minha produção quando ainda jovem, pesquisando e querendo criar histórias voltadas a mitologia grega e nórdica e sem conhecer a mitologia africana.
Isso se deu pois nunca me foi apresentado esse mundo, ao contrário a mitologia grega é sempre vangloriada e difundida por todos os meios de comunicação de massa, enquanto a do negro é sempre renegada, taxada de uma cultura malévola, voltada ao diabo e ao inferno. algo sujo e vil.

Um texto que faz uma análise sobre o negro na literatura é o de Clóvis Moura, que reproduzo a seguir:

O Negro na Literatura brasileira

   No caso específico da Literatura o problema é mais visível e transparente. Deveríamos começar falando do negro como objeto de literatura e do negro como criador de literatura, no processo histórico que constitui a formação e desenvolvimento da nossa cultura literária.
   Em primeiro lugar, o negro na Literatura Brasileira nunca foi herói. Não temos praticamente - salvo algumas tentativas residuais - nenhum livro que mostre o negro como herói, a não ser os anti-heróis de Moleque Ricardo  de José Lins do Rego, do Jubiabá de Jorge Amado, e do próprio O Bom Crioulo de Adolfo Caminha. Nestes, o negro entra sempre como anti-herói, no sentido em que os padrões da     Literatura Brasileira o entendem. Isto não acontece por acaso, evidentemente. Há todo um processo de barragem estético-ideológico impedindo que os criadores da LitBra se voltem para o negro e procurem nele aqueles elementos que permitam transformá-lo em herói literário.
   Quando estudamos a fase do indianismo, a julgamos como sendo simples influência de toda a fase romântica da Literatura Francesa. Isso só ocorreu em termos. No indianismo, há uma conotação nacional, tendo sido usado para desviar o leitor do fundamental. Tínhamos uma sociedade escravista, onde o trabalho escravo era a forma fundamental de produção, e foi visto como necessário derivar para o índio o heroísmo nacional, transformá-lo em herói. Há um exemplo neste particular bastante significativo. A ópera de Carlos Gomes Lo Schiavo teve o seu enredo escrito por Taunay e o personagem central era um escravo negro. Por exigências cênicas, porém, substituíram o herói por um índio e transferiram a ação da ópera do século XVIII para o século XVI. O autor dessa transformação absurda foi o poeta Rodolfo Paravicini, sob os protestos de Taunay. Isso mostra que como símbolo do heroísmo não se podia colocar um negro. O negro tinha de ser na literatura, como nas artes em geral, aquela parte passiva, entrando como paisagem humana, aparecendo apenas para que o herói se destacasse.

  Em cima de tudo isso, desta intelectualidade elitista e preconceituosa, vemos, também, a incapacidade de o negro criar uma cultura dentro dos cânones oficiais existentes na época. A literatura era feita por brancos e em toda a literatura da época vamos encontrar nesta constante: o negro não aparece como herói. Na medida em que essa literatura se forma, surge uma ideologia na sociedade brasileira, a ideologia do branqueamento, isto é, a nação brasileira seria tanto mais civilizada quanto mais branca fosse e pudesse, então, expelir do seu componente étnico o negro. este praticamente era o que sujava a civilização brasileira nesse processo.
  Quando se creia uma Literatura Brasileira, uma ensaística brasileira, ela é, praticamente, toda racista e não apenas em Oliveira Viana. Na obra de Euclides da Cunha, de Sílvio Romero, de Tobias Barreto, este inclusive era mulato, assim como nos romances de Graça Aranha, Júlio Ribeiro e outros, vamos encontrar, como uma constante, aquela determinação de dizer o que sujou, o que atrapalhou a dinâmica da sociedade brasileira não foi o fato de existir escravidão, mas o fato de existir o negro, como raça inferior. há neste momento imbricação de tal maneira sutil que não se diz: o Brasil está atrasado porque foi o último país do mundo cristão onde o escravismo colonial foi abolido, mas, pelo contrário, o país está atrasado porque o negro entrou na sua composição étnica. No discurso de Euclides da Cunha, de Silvio Romero e no de todos aqueles que deram conotação fundamental ao pensamento brasileiro, nós vamos encontrar um discurso racista. Afrânio Peixoto, substituto de Euclides da Cunha na Academia Brasileira de Letras, dizia que tínhamos de nos livrar do mascavo nacional, tínhamos de jogar fora a borra negra para nos  transformarmos, dentro de duzentos anos, num país branco, ocidental e civilizado. Todos os outros seguem mais ou menos esse diapasão.
  Podemos citar, como exceções, Alberto Torres e Manuel Bonfim, mas eles não constituem uma vertente capaz de influir no processo de dominação do pensamento racista das elites, que construíram o pensamento do Brasil. Isso faz com que nossa literatura reflita, veladamente ou às vezes de forma ostensiva, esse racismo subjacente do pensamento da sociedade civil brasileira. todos nós dizemos que somos antirracistas, mas na hora em que as situações concretas se apresentam, vemos esse racismo aparecer.

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